Opte sempre pelo plantio de árvores nativas

Mais do que praticar uma boa ação para si próprio, para o planeta e para as futuras gerações, o plantio de árvores deve ser um ato bem planejado. A escolha de espécies que habitarão o solo, ou até mesmo um vaso, precisa ser cuidadosamente analisada para que o efeito não seja contrário. Em vez de contribuir com o meio ambiente, uma opção errada pode até acabar com o equilíbrio do sistema ecológico onde a espécie se desenvolverá.

Por isso a melhor opção são sempre as espécies nativas. Ainda mais no Brasil, um país que tem seu nome inspirado numa árvore, pau-brasil, e que possui a flora mais diversa e valiosa do planeta. Em termos de cobertura florestal, ficamos atrás apenas da Rússia.

Floresta nativa é composta por uma variedade enorme de espécies

Espécie nativa, silvestre ou autóctone é aquela que se desenvolve naturalmente num determinado ecossistema ou região. Está ali provavelmente há milhares de anos, passou por um grande processo de adaptação e evolução para sobreviver naquele ambiente e não foi introduzida pelas mãos do homem. No entanto, árvores nativas não devem ser confundidas com endêmicas, aquelas que ocorrem exclusivamente num único lugar.  Já as exóticas são as nativas de outros lugares, mas que foram implantadas num bioma diferente do seu natural.

Devido à qualidade do solo e clima brasileiros é comum vermos a “importação” de espécies estrangeiras que aparentemente têm bom desenvolvimento em solo nacional. Aí que mora o perigo, pois essas espécies podem ser nocivas às nativas e ao meio ambiente no geral, principalmente quando plantadas em grande escala.

Caso do eucalipto. Esta espécie originária da Austrália foi trazida para o Brasil na década de 60 e atualmente é muito usada por empresas para fins comerciais e ações de reflorestamento. É uma árvore que cresce muito rápido, mas que pode causar problemas como ressecamento da terra, erosão e desertificação do clima e do solo, pois necessita de muita água, cerca de 30 litros por dia, cada árvore.

Monocultura do eucalipto prejudica o meio ambiente

Outro grande problema associado ao seu cultivo é a destruição da diversidade fauna local, já que as únicas espécies de animais que sobrevivem nesse tipo de floresta, “o assustador deserto verde”, são formigas e caturritas, aves predadoras de lavouras que usam os eucaliptos como abrigo.

A africana espatódea é mais um exemplo complicado. Muito observada na Porta do Sol, plantada por moradores em função de suas flores laranja chamativas, possui uma substância tóxica responsável pela morte de abelhas polinizadoras. No ano de 2014 um apicultor do município de Marília, no interior de São Paulo, registrou, sozinho, a morte de 15 mil abelhas causadas por essa planta.

Espatódea, flor africana que mata abelhas nativas

Mutirões de plantio

Tendo em vista estas considerações, enquanto esteve na direção do Departamento de Meio Ambiente da Apaps, entre 2018 e 2020, o professor e ambientalista Gabriel Bitencourt realizou diversas ações voltadas para o plantio de árvores nativas no Residencial. Para o Dia da Árvore, em 2019, Gabriel conseguiu mobilizar moradores do Residencial, funcionários e diretores da Apaps, além de alunos da escola Felipe Lutfalla para dois mutirões de plantio, um no Clube e outro na escola.

O professor e ambientalista Gabriel Bitencourt durante plantio de mudas nativas no Clube, em 2019

As espécies plantadas foram escolhias a dedo pelo diretor, de acordo com sua interatividade com a fauna local. Foram plantadas espécies nativas, como araçá roxo e amarelo, gabiroba, uvaia, araticum amarelo, pau d’alho, pau jacaré e o pau marfim, além das frutíferas grumixama, jenipapo e pitanga preta. As futuras árvores receberam placas de QR Code para identificação por celular.

Iniciativa do meio ambiente mobilizou associados e colaboradores da Apaps

Em 2020 houve outro plantio na Lutfalla, dessa vez para a construção do pomar da escola, apenas com espécies nativas. Além de frutos, as árvores oferecerão sombra e lugares de descanso no futuro para os alunos.

Alunos constroem seu próprio pomar na Lutfalla

O Viveiro de Mudas do Clube foi revitalizado através de uma parceria com a UFSCar e hoje conta com horta, produção de mudas e programas de doação de plantas e sementes nativas.

 Riqueza local

Se pararmos para analisar, não há motivos para buscar opções externas diante da enorme variedade de espécies que se harmonizam facilmente com o ambiente e a fauna local. O Residencial está numa área de transição entre Cerrado e Mata Atlântica, dois biomas especialmente diversos e, infelizmente ameaçados (mais uma razão para contribuirmos para sua recuperação plantando espécies da região).

Só no Cerrado brasileiro, considerado a maior savana do mundo, existem cerca de 11 mil opções de plantas nativas como jatobá, ipê-amarelo-do-cerrado, mangaba e pequizeiro.

Casal de associados leva mudas nativas doadas pelo Viveiro do Clube

Na outra parte temos a Mata Atlântica, com a maior diversidade de árvores por unidade de área do mundo. Ali encontram-se bromélias, begônias, orquídeas, palmeiras, quaresmeiras, pau-brasil, jacarandá, peroba, jambo, jequitibá-rosa, imbaúba, cedro e figueira.

Plantar é um ato extremamente importante para compensarmos nossas emissões diárias de CO2 na atmosfera, uma vez que as plantas funcionam como um filtro para o planeta, mas exige cuidado e pesquisa antes de introduzir espécies num ambiente. A flora nativa, há milhares de anos interagindo com o ambiente, oferece espécies adaptadas e resistentes às mudanças climáticas de nossos biomas. A natureza é sábia. Só precisamos seguir seu curso em vez de interferir erroneamente.

Por Marília Prétola

 

 

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