Junqueira Freire, rua com poesia, boemia e religião – Residencial Porta do Sol

Junqueira Freire, rua com poesia, boemia e religião

Seu poema mergulha fundo em seu mundo interior e fala constantemente da morte, da angústia, da solidão, da melancolia da vida e dos desenganos amorosos, uma tendência da 2ª Geração Romântica

Junqueira Freire é a personalidade da vez a ser retratada na seção Minha Rua com Arte. O poeta empresta seu nome a uma bela rua no Setor Verde do Residencial. Com cerca de um quilômetro de extensão, começa na Olavo Bilac e termina sem saída em meio a uma reserva florestal.

Junqueira Freire (1832-1855) foi um poeta brasileiro e está entre os que mais se destacaram na segunda fase do Romantismo. É patrono da Cadeira n.º 25 da Academia Brasileira de Letras. Fez parte da Geração Mal do Século, formada por poetas que se debruçaram sobre temas relacionados à morte, ao amor não correspondido, ao tédio, à insatisfação e ao pessimismo.

Junqueira Freire

Nessa fase, a literatura sofreu forte influência do poeta britânico George Gordon Byron (1788-1824). Por isso, os autores dessa geração também são conhecidos como “byronianos”. Cultivavam a boemia, a vida noturna e a palidez dos seus rostos. A morte precoce da maioria deles explica a coerência entre vida e obra.

Rua Junqueira Freire, Setor Verde do Residencial

Considerados representantes do Mal do Século, Junqueira Freire morreu com 23 anos, Álvares de Azevedo com 21, Casimiro de Abreu com 23, Fagundes Varella com 34, Bittencourt Calasans com 37 e Castro Alves com 24 anos.

Luís José Junqueira Freire nasceu em Salvador, Bahia, no dia 31 de dezembro de 1832. Cursou o Liceu Provincial de Salvador. Com 19 anos, inconformado com os problemas que o cercavam, resolveu se refugiar na vida religiosa entrando para o Mosteiro de São Bento.

Depois de um ano de sacerdócio, sem vocação, a vida de clausura no mosteiro provocou no jovem um grande conflito existencial. A vida clerical lhe pareceu terrível, sobretudo uma espécie de atração pela morte que o angustiava.

Em 1853, Junqueira Freire pediu a secularização, que lhe permitiria afastar-se da ordem mesmo permanecendo sacerdote por força dos votos perpétuos. Em 1854, após receber a autorização, voltou para casa.

Inspiração do Claustro

Em 1855, Junqueira Freire escreveu “Inspirações do Claustro”, o testemunho das experiências pessoais vividas no convento, cheias de dúvidas e ilusões. Seus versos condenam as disciplinas religiosas e os votos de obediência.

Seu poema mergulha fundo em seu mundo interior e fala constantemente da morte, da angústia, da solidão, da melancolia da vida e dos desenganos amorosos, uma tendência da 2ª Geração Romântica, também chamada de Ultra- Romantismo, em que também se destacaram Álvares de Azevedo e Casimiro de Abreu. Leia mais poemas de Junqueira Freire.

Os versos a seguir indicam o desengano de Junqueira Freire


Mas eu não tive os dias de ventura
Dos sonhos que sonhei;
Mas eu não tive o plácido sossego
Que tanto procurei.

Tive mais tarde a reação rebelde
Do sentimento interno.
Tive o tormento dos cruéis remorsos,
Que me parece eterno.

Tive as paixões que a solidão formava
Crescendo-me no peito.
Tive, em lugar das rosas que esperava,
Espinhos no meu leito.

 Martírio

Beijar-te a fronte linda,
Beijar-te o aspecto altivo,
Beijar-te a tez morena,
Beijar-te o rir lascivo.

Beijar-te o ar que aspiras,
Beijar-te o pó que pisas,
Beijar-te a voz que soltas,
Beijar-te a luz que visas.


Sentir teus modos finos,
Sentir tua apatia,
Sentir até repúdio,
Sentir essa ironia. (…)

Eis o estertor de morte
Eis o martírio eterno,
Eis o ranger de dentes,
Eis o penar do inferno!

Junqueira Freire, com sérios problemas cardíacos, que sofria desde a infância, faleceu em Salvador, Bahia, no dia 24 de junho de 1855. Ouça a declamação do poema “Teus Olhos”, de Junqueira Feire.

Ilustres Moradores

A família Zancanella

O engenheiro Luiz Antônio Zancanella e a comerciária Márcia Uchoa Zancanella, em 2007, então residentes no bairro de Perdizes, Zona Oeste da capital, chegaram à conclusão que havia passado da hora da família ter uma casa no campo. Como sua irmã Leda Maria tinha uma chácara na Porta do Sol, Luiz não teve dúvidas, adquiriu um lote na Junqueira Freire, Setor Verde do Residencial, cercada de mata fechada e sem nenhum morador. À primeira vista, diante da falta de estrutura do lugar, rua sem saída, fim de mundo desabitado, sem contar que o terreno era cheio de altos e baixos, marido e mulher hesitaram na hora de fechar o contrato. Mas a razão falou mais alto, afinal aquilo era exatamente o que eles estavam procurando, por reunir proximidade com a fauna e com a flora, tranquilidade e ar puro, isto é, nada que lembrasse a azáfama peculiar da cidade grande. Além disso, como engenheiro civil, Luiz Antônio enxergou na irregularidade do terreno da Junqueira Freire a possibilidade de construir uma casa elevada com uma privilegiada vista para a vastidão de Mata Atlântica. Em dezembro de 2007 a casa estava pronta para servir de centro de convivência para a família Zancanella. Luiz Antônio lembra que, ainda naquele ano, precisou pedir ajuda da administração da Apaps para limpar e aplainar a Junqueira Freire, pois era intransitável. Até hoje a Junqueira Freire não foi pavimentada, mas Luiz Antônio prefere assim, o asfalto poderia tirar o bucolismo da rua.

Aos poucos tudo acabou por entrar nos eixos. Nos finais de semana, invariavelmente, Luiz Antônio e Márcia, acompanhados dos filhos Alexandre, Marcos e Marina, fechavam o apartamento nas Perdizes e escorregavam pela Castelo Branco em direção à Porta do Sol.

Em 2020 veio a pandemia do novo Coronavírus e com ela a possibilidade de se trabalhar em home office. Era a oportunidade que o engenheiro e a comerciária estavam esperando. Com a disponibilidade de Internet rápida, o casal, definitivamente, mudou-se de mala e cuia para a Porta do Sol. Agora, resolvem suas tarefas profissionais sem sair da chácara e longe de qualquer aglomeração, ao mesmo tempo em que estreitam a relação com a natureza.

Luiz Antônio e Márcia

Luiz Antônio e Márcia moram sozinhos no Residencial, mas nos finais de semana e feriados prolongados recebem a visita do filho mais velho, Alexandre com a esposa Débora, do rebento do meio, Marcos, com a companheira Isabel e o filho Benjamim, de 3 anos e da caçula Marina com a filha Isabela, de 7 anos.

Ao lado dos filhos e netos, os donos da casa aproveitam cada dádiva da Porta do Sol, malgrado as limitações impostas pela pandemia. No dia a dia, aproveitam as horas de folga para zelar pela chácara, coisa que antes só era feita esporadicamente nos finais de semana. Agora, em tempo integral, Luiz Antônio cuida da horta, da estrutura de lazer e dos reparos que aparecem. Márcia, por sua vez, dá atenção especial ao paisagismo, ao jardim, ao pomar e ao interior da casa.

Essa atenção redobrada desde o início de 2020 resultou numa maior produção de hortaliças e frutas. Jabuticaba, manga, laranja, limão, alface, chuchu, pepino, tomate e ervas aromáticas são coisas produzidas no quintal. A família Zancanella, nesses tempos de crise hídrica, dá um belo exemplo de sustentabilidade. Quando projetou sua chácara, Luiz providenciou a instalação de equipamento de captação de água de chuva. Para se ter uma ideia, com o reaproveitamento da chuva fina que caiu na Porta do Sol nos últimos dois dias ele encheu a piscina e ainda reservou 5 mil litros para regar as plantas, limpezas e abastecer as descargas do banheiro. Um exemplo a ser seguido.

Luiz Antônio faz questão de se firmar como um legítimo porta-solense. Ele aponta quatro grandes qualidades do Residencial. A primeira, no seu entender, fica por conta da gestão séria e competente e da localização privilegiada na região de Dona Catarina, em Mairinque. O segundo ponto positivo, um dos mais importantes, no seu modo de ver, é a segurança, o terceiro é a beleza e a riqueza ambiental. Por fim, a quarta qualidade pode ser creditada à facilidade de acesso para quem se desloca para São Paulo. Ele ainda complementa que a localização da Porta do Sol facilita, também, pela Castelo Branco, o deslocamento para o interior do estado.

Luiz Antônio e Márcia, ao mesmo tempo em que esperam o fim da pandemia, apostam que a nova normalidade deva chegar com novos valores de solidariedade descobertos pelo aprendizado. Acreditam que em breve todos terão de volta as confraternizações, as festas temáticas, os bate papos no Bar Café e no Restaurante e, principalmente, os beijos e abraços que fazem tanta falta ao ser humano.

Galeria de fotos

Por Marcos Capitão

 

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