Francisco Portinari lembra o Protetor dos Animais

Portinari pintou quase cinco mil obras e conseguiu prestígio nacional e internacional dificilmente igualado no Brasil. Tornou-se renomado ao explorar temáticas brasileiras que incluem a luta das classes dos trabalhadores nas plantações, favelas e cidades.

 

Auto retrato – Cândido Portinari

O nome “Francisco Portinari”, emprestado a uma rua da Porta do Sol – tudo indica e por vários motivos – faz referência ao pintor paulista, Cândido Portinari. Como sabemos, a Porta do Sol é um projeto de Oscar Niemeyer (1907-2012) com paisagismo de Burle Marx (1909-1994). Junto com Portinari (1903-1962) trabalharam juntos em diversos projetos por todo o Brasil. Niemeyer, conhecido por suas curvas inovadoras, Burle Marx, com suas belas paisagens e Cândido Portinari, com seus painéis singulares são os responsáveis pelo projeto da Igreja da Pampulha, a pedido de Juscelino Kubitschek (1902-1976).

Chamar Cândido Portinari de “Francisco” não soa estranho quando se lembra que o artista retratou São Francisco de Assis por inúmeras vezes. Ele é o autor do mural que ornamenta a igreja da Pampulha, na qual retratou uma cena da vida de São Francisco, em que ele se despoja de suas vestes diante de sua família burguesa de comerciantes. Pinturas de São Francisco, feitas por Portinari, estão espalhadas por diversos museus em todo o País. Portanto, chamar Cândido Portinari de “Francisco” é prestar uma singela homenagem ao artista e ao santo protetor dos animais.

A rua

A rua Francisco Portinari

Com um quilômetro de comprimento, a rua Francisco Portinari fica no Setor Vermelho do Residencial, começa na Pedro Alexandrino e vai até às proximidades da Rodovia Castelo Branco, vizinha ao Aeroporto da JHSF. Essa rua fica nos limites de São Roque, mas por outorga, faz parte do Residencial Porta do Sol.

O artista

Candido Torquato Portinari nasceu no dia 30 de dezembro de 1903 em uma fazenda de café, na cidade de Brodowski, interior de São Paulo. Filho de italianos, Portinari veio de uma família humilde e era o segundo filho de doze irmãos. Portinari pintou quase cinco mil obras e conseguiu prestígio nacional e internacional dificilmente igualado no Brasil. Tornou-se renomado ao explorar temáticas brasileiras que incluem a luta das classes dos trabalhadores nas plantações, favelas e cidades.

Deixou São Paulo aos 15 anos e fixou residência no Rio de Janeiro, onde se matricula na “Escola Nacional de Belas Artes”. Aos 20 anos, Candido já é prestigiado pela crítica nacional. Contudo, será em 1928, quando conquistou o “Prêmio de Viagem ao Estrangeiro” da Exposição Geral de Belas-Artes, que Portinari ganhará o mundo.

Morou em Paris e outras cidades europeias, onde conheceu artistas como Van Dongen e Othon Friesz, além de Maria Martinelli, uruguaia com quem se casou e viveu toda a vida. Regressou ao Brasil em 1931 e nessa época passou a valorizar mais as cores em seus trabalhos, abandonando os conceitos de volume e tridimensionalidade.

Em 1935, Candido Portinari recebeu uma “Menção Honrosa” na Exposição Internacional do Carnegie Institute de Pittsburgh, Estados Unidos. Esse acontecimento abriu de vez as portas para o pintor naquele e em outros países.

Reconhecimento

Largo da Pampulha – estátuas de Burle Marx, Niemeyer, Portinari e Juscelino Kubitschek

Após isso, produziu três grandes painéis para o pavilhão do Brasil na “Feira Mundial de Nova York”, em 1939. Contudo, será na década de 40 que este processo de reconhecimento irá se consolidar. O pintor participa da “Mostra de arte latino-americana” no Riverside Museum, em Nova York.

Além disso, destacou-se com sua exposição individual no Instituto de Artes de Detroit e no Museu de Arte Moderna de Nova York. Tudo isso ao lado de outros grandes artistas consagrados mundialmente. Nesse momento, Candido Portinari terá o primeiro livro dedicado a sua pessoa, a obra Portinari, His Life and Art, da Universidade de Chicago.

Em 1941, o artista produz os murais na Fundação Hispânica da Biblioteca do Congresso em Washington, sempre enaltecendo a temática latino-americana. Mais tarde, o pintor é convidado por Oscar Niemeyer, em 1944, a contribuir com suas obras para o complexo arquitetônico da Pampulha, em Belo Horizonte (MG).

Pampulha

Nesse projeto, destacaram-se as composições sacras São Francisco e Via Sacra na Igreja da Pampulha. Inaugurada em 1943, a Igreja de São Francisco de Assis, com projeto arquitetônico de Oscar Niemeyer, paisagismo por Burle Marx e painéis do pintor Cândido Portinari.

Museu Casa de Portinari, em Brodowski, interior de São Paulo

A primeira exposição de Portinari na Europa será em 1946, quando o pintor regressa a Paris e expõe na renomada Galerie Charpentier no ano seguinte, 1947. Suas obras terão lugar no salão Peuser, em Buenos Aires, bem como nos salões da Comissão Nacional de Belas Artes, em Montevidéu. A estada pela América Latina se estende quando Portinari exila-se no Uruguai, por motivos políticos, em 1948.

Ele era ativo no movimento político-partidário e filiado ao Partido Comunista Brasileiro. Se candidatou a deputado, em 1945 e a senador, em 1947, perdendo em ambas as eleições. Em 1950, irá receber a medalha de ouro do “Prêmio Internacional da Paz” e, em 1951 é destaque na 1° Bienal de São Paulo.

A década de 50 marcou a vida de Cândido. Isso porque surgem problemas de saúde causados por intoxicação de chumbo presente nas tintas que o pintor utilizava em suas obras. É nessa época também que ele realiza os famosos murais Guerra e Paz (1953-1956) para a sede da ONU, em Nova York.
Posteriormente, também em Nova York, em 1955, Portinari é honrado com a medalha de ouro da Internacional Fine-Arts Council na categoria melhor pintor do ano. Importante ressaltar que Portinari foi o único artista brasileiro convidado para exposição 50 Anos de Arte Moderna, no Palais des Beaux Arts, em Bruxelas, em 1958.

Por fim, em meados de 1962, Portinari aceita uma encomenda da prefeitura de Barcelona, contudo, seu nível de intoxicação pelas tintas torna-se fatal e ele falece neste ano em 6 de fevereiro, aos 58 anos. A casa onde viveu em Brodowski, no interior de São Paulo, tornou-se Museu Casa de Portinari em 1970. O local reúne diversas obras, móveis e objetos pessoais do artista. Atualmente, ali são desenvolvidas diversas atividades educativas e culturais.

 

Ilustres moradores

Kelly, Sidney e os amigos Albert, Pietro, Cristiane e Nalu, sempre presentes

A administradora de empresa e profissional de TI, Kelly Lopes, e o desenhista industrial Sidney Rios são paulistanos e desde a infância sempre moraram no bairro Jaçanã, na capital paulista. Compraram o lote na Francisco Portinari em 2006, começaram a construir em 2009 e em 2012 mudaram-se de mala e cuia para a Porta do Sol. Em princípio, a ideia era ter a chácara como um local de veraneio, mas a chance para a mudança apareceu quando Sidney transferiu seu trabalho para Boituva, cidade a pouco mais de cinquenta quilômetros de Mairinque. Hoje, ele trabalha em outra empresa, em Vinhedo, e Kelly continua a trabalhar em São Paulo.

Ela conta que não possuem filhos e que só os dois moram na propriedade. Mas faz questão de dizer que a casa está sempre cheia de gente querida. As visitas de amigos e familiares são constantes, sempre tem alguém passando temporadas com o casal.

Além disso, o espaço na Francisco Portinari é compartilhado com três vira-latas, Zeca, Frida e Zoe. O trio canino apareceu na família após ser resgatado das ruas da Porta do Sol, conforme explica Kelly, por duas “anjas” dedicadas aos cuidados dos animais abandonados, Renata Buono e Yvonne Kraiker, ambas moradoras do Residencial.

A chácara na Francisco Portinari foi ideal para a administradora de empresas e o desenhista enfrentarem a pandemia. Longe de aglomerações e com muito espaço para locomoção, de março a agosto, os dois aproveitaram a opção do home office para trabalhar em casa. Kelly ainda usou o tempo em casa para aumentar sua coleção de orquídeas.

Sidney e Kelly, a uma só voz, garantem que a grande qualidade da rua são os vizinhos, quase todos moradores. Ela diz que são muito queridos, respeitosos, acolhedores e estão sempre dispostos a ajudar. Complementa que raramente se ouve por ali um som alto ou algum acontecimento que incomode. Dá o exemplo do casal Francisco e Suely, que mora na casa em frente. Conta que ambos são muito atenciosos e que a ensinaram a comer atemoia, uma fruta deliciosa que nunca havia experimentado antes.

Como toda regra tem uma exceção, um vizinho incomoda muito Kelly e Sidney, o Aeroporto Catarina. Em determinado trecho da Francisco Portinari pode-se avistar a pista de pouso e decolagens. Eles relatam que os aviões passam rente à cabeça dos moradores e temem, sobretudo, que a poluição sonora, do ar e da água possa resultar em futuros problemas de saúde.

De qualquer forma, o empreendimento da JHSF não retirou toda a tranquilidade e o bucolismo do lugar. Bastante arborizada e segura, como todas as vias da Porta do Sol, a Francisco Portinari é ideal para caminhadas, passeios em grupos, de bicicleta ou com os cachorros. Sidney, que adotou o ciclismo como hobby, costuma pedalar, quase que diariamente, mais de vinte quilômetros pelas ruas da região.

Como a grande maioria dos brasileiros, esperam a chegada da vacina e a volta do “novo normal” para retomarem os prazeres da Feirinha Noturna, das festas no Clube e dos bate papos com amigos no Bar Café ou no restaurante.

Por Marcos Capitão

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